Trabalhando há já alguns anos com Inteligência Emocional, quer no contexto de formação nas empresas ou a particulares, ou no acompanhamento de pessoas em processos individuais, encontramos facilmente um ponto comum nas reações mais habituais quando se aborda a regulação emocional. A autorregulação é um dos eixos da Inteligência Emocional, uma das “últimas” etapas e talvez a mais complexa de integrar, aparentemente.

Por um lado, há a tendência natural a interpretar as reações emocionais como traços de personalidade, intrínsecos e que não podem ser alterados, por isso se eu sou “irritadiço”, se “fervo em pouca água”, se sou impaciente, isso são “coisas” que fazem parte de mim e não as posso alterar. Normalmente não identificamos aqui também as competências que podemos adquirir ou melhorar.

Por outro lado, há uma tendência a só reconhecer as emoções nas suas versões mais extremas ou intensas. Quando em sessão pedimos um exercício simples, de reconhecimento das emoções experienciadas por exemplo no último dia ou na última semana, há até quem refira ter poucas emoções, ou que de momento não está a sentir nenhuma emoção em particular.

Ora isso não é verdade, o ser humano está sempre num determinado estado emocional, o cérebro emocional não deixa de funcionar, da mesma forma que a atividade mental, do cérebro racional, também nunca é interrompida. O que acontece é que estamos pouco despertos para todas as nuances das nossas emoções que, tal como uma paleta de cores, assume várias tonalidades ao longo de um só dia. É fácil eu recordar-me de um momento de extrema zanga ou irritação, mas mais difícil é reconhecer momentos em que permaneci no contentamento, na serenidade ou ligeiramente aborrecida, melancólica ou expectante.

Esta consciência é de enorme importância porque quando falamos de autorregulação não nos referimos a ir de um extremo ao outro. Não é possivel ir da raiva à tranquilidade com passes de mágica. O caminho até um estado furioso passou antes por sentir-se aborrecido, chateado, zangado, etc… No limite, em estados emocionais muito ativados é realmente difícil essa regulação, porque quando estamos sob “sequestro emocional” não conseguimos aceder a todas recursos para nos regularmos (é difícil, não impossível).

Escala de Progressão das Emoções

Escala de Progressão das Emoções

Quando alguma coisa nos chateia, e ficamos zangados, é comum acompanharmos esse estado com pensamentos que validam e reforçam o que estamos a sentir, até a forma como nos comportamos ou a nossa postura corporal, mais recolhida e tensa, acompanha o estado emocional, alimentando um ciclo interminável que faz crescer a intensidade do que se está a sentir, até ao ponto da emoção tomar conta do comportamento por completo.

Compreender que os estados emocionais funcionam em escala, e ter consciência dessa escala pessoal permite-nos estar mais atentos à progressão das emoções, e atuar quando a emoção é moderada e passível de uma intervenção mais eficaz, como por exemplo, mudar o foco da nossa atenção, alterar um comportamento, retirarmo-nos de uma situação, etc.

Esta perspetiva também ajuda a compreender que o processo de regulação é progressivo e o que se pretende é a redução gradual da intensidade da emoção. Como na imagem, é preciso compreender em que ponto da escala me posiciono, percebendo assim que, sem agir na autorregulação a emoção vai escalar, se me regular posso reduzir pouco a pouco a intensidade do que estou a sentir, e desta forma recuperar uma postura mais equilibrada, que me ajuda a tomar melhores decisões e agora de forma mais benéfica para mim.

A abordagem à Inteligência Emocional requer, acima de tudo, curiosidade natural para a forma como olhamos para dentro, para quem somos, para o que sentimos e para o que isso diz sobre nós (não sobre os outros)… e depois, é um processo de aprendizagem sobre esse mundo, esse universo emocional, conhecendo as suas regras, as suas estruturas e funcionamento, para que possamos usar o lado emocional de forma tão eficaz como fazemos com o nosso raciocínio.