“Chamemos-lhe R., 36 anos, homem solteiro e desempregado, depois de anos a trabalhar numa fábrica que fechou, foi recebendo subsídio de desemprego durante alguns meses, mas depois até isso acabou. O pai que sofria de Parkinson foi piorando e começou a precisar de cuidados mais frequentes. A a mãe ainda fazia a lida da casa, mas padecia de problemas respiratórios, cardíacos e circulatórios, e mesmo sem uma grande qualidade de vida, era ainda assim autónoma. No inverno,uma gripe faz a mãe piorar e ser internada com uma pneumonia. Mais tarde dá uma queda e fica acamada, já que o estado físico não lhe permitia ser operada à fratura da bacia. R. estava em casa, sem trabalho e a frequentar formação profissional, mas com duas irmãs emigradas, não podia sequer pensar em arranjar emprego, alguém tinha de ficar em casa e cuidar dos pais. A família lá conseguiu alguma ajuda do apoio domiciliário, já que o lar lá da terra não podia albergar o casal.

Mas sobre R. recai boa parte da responsabilidade. E está deprimido, não sente que tenha objetivos de vida, não tem um relacionamento afetivo, não tem qualquer apoio de natureza emocional, sente-se só e, como se não bastasse, constrangido no cuidado aos pais, especialmente, nos cuidados de higiene íntimos. R. procurou apoio psicológico, mas nem sempre há a consciência desta necessidade de ajuda para quem se dedica quase integralmente ao cuidado do outro.”

Cuidar implica entrega, dedicação, empenho, criatividade, uma relação construída em conjunto, entre cuidador e dependente, simultaneamente racional e afetiva, plena de significados e sentimentos, onde cada um dos envolvidos projeta no outro os seus medos, as suas vulnerabilidades, fragilidades e angústias e, por isso tudo, não é uma situação simples.

Cuidar implica a mobilização completa de quem cuida, que se traduz no respeito pelo sofrimento, pelos princípios e valores de quem é cuidado, pela sua dignidade, mas onde nunca se devia perder de vista a necessidade imperiosa de manter a qualidade de vida do cuidador e este muito facilmente se “esgota”, até porque muitas das vezes, desistir não é uma opção.

Se há pessoas cuja opção profissional é cuidar de outros e só dessa forma se sentem realizados, para muitos nem sempre é uma escolha movida por razões vocacionais. Neste caso verdadeiro aqui retratado R. terá sido movido pelo amor, pela noção de dever, pressão social, ou e pela gratidão.  pela moralidade e dever de reciprocidade, por razões económicas também. Não obstante as circunstâncias e o contexto, é sempre uma situação de entrega ao outro e dádiva.

Não é assim difícil perceber que cuidar de outros facilmente conduz à exaustão, uma vez que se exige aos cuidadores que passem para segundo plano ou negligenciem as suas próprias vontades e, ou as suas necessidades, vivendo em função da satisfação das necessidades e da prestação de cuidados aos outros.

Isso acarreta uma sobrecarga psicológica, física e emocional, que acaba muitas das vezes por ter um preço demasiado alto e que se manifesta em stress ou ansiedade, desmotivação, frustração, cansaço extremo. A dificuldade em lidar, expressar ou gerir essas emoções, impede o cuidador de encontrar a autorregulação necessária e fundamental para o seu equilíbrio pessoal e bem-estar.

Este texto é assim um convite a um olhar mais compassivo para com todos os que, profissional ou informalmente, se encontram na posição de cuidador,. É o reconhecimento da dimensão que o desgaste físico e emocional pode alcançar e da importância extrema que é olhar para este cuidador de uma nova forma. Este cuidador precisa de suporte, de estrutura emocional, para poder ser pleno no ato de cuidar e para viver o seu serviço de dádiva da forma mais plena possível.

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