Atualmente aumenta o número de pessoas com doenças do foro intestinal, tais como síndrome do colon irritável, colites, doença celíaca, entre outras que se juntam às autoimunes e a distúrbios metabólicos, a que chamamos síndromes – conjunto de sinais e sintomas – muitas das vezes sem causa bem definida ou resultado de causas variadas.

Como nos diz António Damásio (1), no seu último livro, desde há muito que os intestinos, em particular, e o corpo de uma maneira geral, têm vindo a ser negligenciados, estando os intestinos praticamente ausentes dos estudos científicos sobre homeostasia, sentimentos e emoções.

A verdade é que o sistema nervoso entérico, como são designados os intestinos, não é periférico, mas sim, central! É uma estrutura enorme que compreende entre 100-600 milhões de neurónios (um valor até mais elevado do que o encontrado na espinal medula) e comunica diretamente com o cérebro através do nervo vago. A maior parte dos seus neurónios é intrínseco, o que faz dele uma estrutura neural independente.

Isto quer dizer o quê? Quer dizer, por exemplo, que o sistema nervoso central não diz ao sistema entérico o que fazer, nem como fazê-lo, apesar de poder modelar as suas operações. Isto é, existe um fluxo de comunicações constante entre ambos os sistemas, essencialmente dos intestinos para o cérebro. Talvez por isso, hoje em dia haja quem se refira aos intestinos como o “segundo cérebro”.

E isto também significa que atualmente já são muitos os indícios que apontam para que o aparelho gastrointestinal e o sistema nervoso entérico desempenhem um papel importante nos sentimentos e no humor, até porque é no sistema nervoso entérico que se produz a maior parte da serotonina do nosso corpo, hormona essa responsável por regular o sono, o apetite, a temperatura do corpo, por exemplo e, ainda, na coordenação de funções intelectuais, sendo ainda considerada um estabilizador natural do humor. Já dá para perceber o que é que afinal os intestinos têm a ver com o estado emocional em geral.

Tal como o sistema nervoso central comunica com o sistema entérico, também num processo psicoterapêutico – que não exclua o corpo – o lado emocional deve comunicar com o lado racional e, com isto, não digo que seja preciso “falar sobre os sentimentos”, pois isso continua a ser mental e racional. É preciso vivenciar e experienciar, é preciso trazer para a consulta, o corpo, e as emoções no corpo.

O corpo “expressa-se” diariamente e nós tendemos a não ouvir, a “deixar para trás” e a achar que “ele aguenta”. O corpo fala aquilo que a mente muitas vezes tenta esconder ou dissimular e também guarda memórias, memórias de afetos, de traumas, de tensões.

Os nossos sentimentos (e aqui, volto a parafrasear António Damásio) são expressões mentais da homeostasia, do equilíbrio do nosso organismo, portanto, uma pessoa que se sinta mal, incomodada, ansiosa, angustiada, stressada, vai provocar uma série de alterações neuroquímicas no corpo que, por sua vez, com o tempo e com o excesso de concentração de determinadas hormonas no sangue, conduzem a um estado de desequilíbrio e de doença.

Claro está que acontecimentos externos que nos provocam sentimentos desagradáveis, perturbam esse mesmo equilíbrio interno, como o caso da tristeza provocada pela perda de alguém que amamos, isso perturba a nossa saúde, mais concretamente, diminuindo as respostas imunitárias e a capacidade de estar alerta para outros riscos. Os sentimentos podem incomodar-nos ou serem prazerosos, mas são os acontecimentos da vida que nos fazem sentir bem e que aumentam o nosso bem-estar e qualidade de vida que promovem estados homeostáticos benéficos.

Se a sua cabeça também lhe põe a barriga às voltas, talvez seja tempo de parar e escutar.

 

(1) Damásio, A. (2017). “A Estranha Ordem das Coisas. A vida, os sentimentos e as culturas humanas”. Lisboa: Ed. Temas e Debates – Círculo de Leitores.