Esta tema surgiu há dias numa formação, mas recebo e conheço muitas pessoas com esta mesma inquietação… eu própria já partilhei dela em tempos. Muitas pessoas se questionam sobre qual é o seu propósito de vida e procuram a insondável resposta para a pergunta: “o que é que eu vim cá fazer” ou “o que é que é suposto eu fazer”… e em boa parte das vezes, quando colocam esta questão, estão a referir-se ao trabalho, à carreira. Querem saber o que é que nasceram para fazer, idealizando que esse trabalho, a sua carreira, representa o caminho para a completude que procuram.

Não procurem mais que eu posso já dar-vos a resposta: o propósito de vida, o vosso e o de todos nós é muito simples, é viver. É entrar neste fluxo da vida, experienciando cada momento da forma mais plena possível. A vida é o nosso bem mais precioso, estarmos aqui, respirar, sentir o coração a bater, relacionarmo-nos com outros seres, experienciar e viver, com todas as dores e desafios que isso acarreta. É dar continuidade à vida que nos foi dada, usufruindo dela, gerando mais vida e crescendo com os outros.

Atualmente associamos muito a nossa realização pessoal à nossa carreira, à concretização de objetivos profissionais e desempenho, e talvez por isso procuremos no trabalho o sentido que vida deve ter. A vida é para ser vivida, contemplada, agradecida, é para falharmos, cairmos, aprendermos, crescer e evoluir para depois falhar de novo. Não levamos nada desta vida a não ser as aprendizagens que fizermos, a não ser as nossas experiências e a evolução que formos fazendo ao longo do caminho. E isso faz-se com trabalho sim, mas trabalho interno, pessoal e individual. O meu projeto de vida sou eu!

O trabalho não tem de ser o propósito de ninguém, e quero acreditar que não é o propósito de ninguém. Não sei bem quem criou tudo isto (tenho a minhas teoria não se enquadra neste artigo), mas um planeta tão bonito, com árvores e mar, flores e música e arte… tanta coisa para usufruir e nós vivemos para trabalhar? O trabalho até pode servir para as aprendizagens que temos de fazer, mas não servem de propósito.

O meu propósito é ser mais pleno, mais agradecido, mais compassivo, consciente, acreditem que este é o maior desafio de carreira de todos os tempos. A forma como trabalhamos para cuidar da nossa subsistência, para garantir a nossa vida nas melhores condições possíveis é só uma parte da nossa experiência de vida.

Já sei o que vão dizer, que é legítimo querer ter realização e prazer no trabalho que se faz, claro que sim, e concordo. Podemos querer ter realização e prazer no trabalho, mas isso é mais uma atitude perante a vida, que depois se reflete na forma como trabalho e como me coloco ao serviço dos outros. No outro dia davam-me o exemplo de um senhor que trabalha nas portagens da ponte 25 de abril, e que recebe todos os que por ali passam com um sorriso e uma palavra amiga. Será que esta pessoa tinha como propósito ser portageiro? Ou será que a atitude grata e acolhedora que ele tem no trabalho é um reflexo da forma como ele vê a vida?

Não interessa o que se faz, mas sim o que temos em nós. É da vida que se deve extrair o maior dos prazeres, da forma como damos o ombro a um amigo, acolhemos as dúvidas de um filho ou contemplamos uma paisagem. Algures algo ou alguém nos deu esta dádiva que é a possibilidade de estarmos hoje aqui. Vamos agradecer “educadamente” esse presente” 😉

A árvore não se preocupa com seu propósito… ela alimenta-se da terra, aprecia a luz do sol, aquieta-se para deixar poisar os pássaros
E um dia, sem saber bem como, o fruto nasce e a árvore cumpre-se.