É preciso desmistificar a ideia de que “psicólogo é para malucos”. Já escrevi vezes sem conta sobre o assunto, mas não me canso, nem desisto de abordar o tema, porque é demasiado importante para se desistir dele.

São várias as crenças que imperam, tais como “se o problema é da tua cabeça podes resolvê-lo sozinho”, ou “se isso é do sistema nervoso, o que é que o psicólogo vai fazer?”, ou ainda “para falar, então falo com um amigo”.

Muitas vezes quem rodeia a pessoa que precisa de apoio terapêutico não ajuda fazendo-a achar que esta se sente assim “porque quer”, “que podia esforçar-se para melhorar”, “podia deixar de pensar ou agir daquela maneira”. Mas esse mal-estar não depende da vontade da pessoa.

Ainda podíamos ir mais longe nesta reflexão e questionarmo-nos sobre o que é isso de ser maluco para precisar de ir a um psicólogo?! Uma vez li, já não sei onde (perdoe-me quem vir a sua ideia roubada), que malucos ficam aqueles que têm medo de olhar para dentro de si, malucos ficam os que varrem tristezas ou ódios para debaixo do tapete, malucos ficam os que guardam as lágrimas e os medos só para si, aqueles que, em vez de expressarem sentimentos, se tornam “bombas relógio”.

Todos os meus pacientes são pessoas “normais”, têm uma vida aparentemente normal, famílias normais, podiam ser os vizinhos a quem gabamos a vida, o casamento, o trabalho ou os filhos. Porque é mais fácil olhar para fora, para os outros, para as famílias dos outros, as suas vidas, os seus “não-problemas”, do que nos determos, por uns minutos que seja, em nós próprios, no que somos, no que sentimos e no que gostaríamos de melhorar, de ser e fazer diferente.

970 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de algum tipo de distúrbio mental e o número de pessoas com depressão e ansiedade aumentou mais de 40% nos últimos 30 anos, aumentando consequentemente a prescrição médica de ansiolíticos, antidepressivos, sedativos e hipnóticos. Portugal é o país da OCDE com maior consumo de ansiolíticos, hipnóticos e sedativos.

Recorre-se à medicação até perante situações “normais” de desafios de vida: formas moderadas de ansiedade social, tristeza, timidez, absentismo escolar ou comportamento antissocial ou rebelde, quando devíamos estar a investir no fortalecimento de competências sociais como a resiliência, capacidade lidar e gerir com situações de zanga e frustração, habilidade para reconhecer e expressar emoções, sentimentos e pensamentos, assumir responsabilidades, pensar antes de reagir, ouvir e respeitar os outros e tantas outras.

Estudos recentes apontam para uma maioria significativa de pessoas que não consegue lidar com questões socioemocionais, quer a nível pessoal quer profissional. O ritmo de vida e as exigências sociais e familiares também mudaram e hoje ninguém tem tempo para nada! As crianças não têm tempo para ser crianças, os pais mal têm tempo para descansar, os professores não têm tempo para dar aulas e para se dedicarem aos seus alunos, e tudo fica mais difícil para todos!

Atualmente, estudos científicos sugerem que as intervenções psicológicas têm resultados consistentemente superiores no aliviar do sofrimento psicológico quando comparada à condição de placebo ou ao não tratamento; é, em muitos casos, igualmente eficaz a intervenções medicamentosas, sendo os ganhos terapêuticos mais duradouros e existem fortes apoios empíricos a confirmar a eficácia do acompanhamento psicológico para um conjunto alargado de perturbações psicológicas específicas, tais como a depressão, perturbações de ansiedade, stress pós-traumático e perturbações de personalidade.

Melhorar o autoconhecimento, identificar e reconhecer as emoções e sentimentos que nos fazem “perder as estribeiras”, melhorar a capacidade de autorregulação emocional, identificar situações ansiogénicas e perturbadoras do equilíbrio psíquico e físico, identificar padrões de comportamento e reação para os podermos mudar, isso e muito mais, pode ser feito com a ajuda de um psicólogo, quer em clínica individual quer através de programas de treino emocional, com adultos, jovens ou crianças. E isso não é coisa de malucos, é de todos nós!