De vez em quando, tenho aquilo a que resolvi chamar de “semana temática” que basicamente é a forma como, ao longo de uma sequência de dias, em diversas situações da minha atividade profissional, eu deteto um padrão, ou neste caso um tema partilhado por boa parte daqueles com quem me cruzo. Esta foi uma dessas semanas, em que tanto em atendimento individual de coaching, tanto em trabalho sistémico, como em formação e até em conversa com amigos, o tema teve a ver com a reflexão de cada um em relação aos seus pais.

O que era comum à reflexão que todos partilhavam era a consciência de que os seus pais não lhes tinham dado tudo o que precisavam, ou tudo o que mereciam, ou na medida desejada, apesar de todos reconhecerem que estes haviam feito o melhor que sabiam e que lhes tinha sido possível. Que sim senhor e muito bem, fizeram o que sabiam e podiam, mas que sirva esta reflexão para que “eu” não cometa os mesmos erros!

E assim se arruma a reflexão da nossa origem, com uma complacência perante os pais, em que sentimos que, do alto da nossa infinita sabedoria, reconhecemos que eles deram o seu melhor, e com isto ficamos como que ligeiramente superior a eles, por termos chegado a essa magnífica compreensão.

Só que, ao refugiarmo-nos neste pensamento, temos por um lado o pensamento que devíamos de ter tido algo que não tivemos, que devíamos ter recebido um pouco mais do que recebemos, que algo que devia ter sido feito e não foi. Ou seja, na verdade, o pensamento de que aquilo que foi dado não foi suficiente. Os meus pais deram-me amor, mas foram muito rígidos, os meus pais nunca me faltaram com nada, mas nunca fui muito acarinhado, a minha mãe amou-me muito, mas era muito protetora…. Se há coisa que nos ensinam em coaching é a importância do uso da linguagem, é que o “mas” apaga sempre o que foi dito primeiro.

Se eu sou fruto de todas as minhas circunstâncias, se eu sou o resultado do que me foi proporcionado – sem mas – então, quando eu acho que podia ter recebido mais, eu acho também que hoje eu poderia ser mais, ou melhor ou ser outro que não eu.

Se eu acho que os meus pais cometeram erros, então eu hoje sinto-me fruto desses erros. Então, quando eu não aceito o que me foi dado, na exata medida que me tornou naquilo que sou hoje, então eu não aceito ser quem sou hoje.

Se eu não aceito a vida, tal como ela me foi dada e tal como ela me foi proporcionada, então eu não aceito a vida que tenho. E não há forma nenhuma de fazer um caminho em direção ao futuro, que não implique a total aceitação e integração do que sou hoje.

Aceitar o que sou hoje não implica não querer mudar ou não querer ser melhor no futuro. Aceitar o que se é hoje é assumir a vida que se tem, assumir a própria responsabilidade pelo que fizemos com o que nos foi dado, a responsabilidade pelas minhas escolhas, pelas minhas emoções.

E se… o que os meus pais me deram for suficiente?

E se… tudo o que fizeram foi o certo e o correto para eu ser quem sou hoje?

E se… eles não tiverem cometido erro nenhum?

E se… tudo o que me foi dado for perfeito e suficiente, para eu estar hoje na plena consciência do que sou, em total sintonia com a vida que tenho hoje e o que posso fazer dela?