Uma das nossas características mais distintivas enquanto espécie é a nossa capacidade de cooperar. Suprimir a vontade individual em prol do coletivo. Cooperar em nome de um bem maior requer, acima de tudo, comunicação e confiança, duas valências comuns a qualquer relação humana. Quando falamos do coletivo da espécie humana, elevamos ao expoente máximo esta exigência e dificuldade.

A nossa sociedade é tão mais saudável quanto maior for a capacidade de cada ser humano comunicar e confiar no outro, e de confiar nas instituições que juraram gerir e proteger essa mesma sociedade. Ora, na saúde mental, duas das grandes áreas de intervenção são precisamente os processos de comunicação e a relação, por isso, quando isto falha, a sociedade está em risco, por isso quando falamos de saúde mental falamos de um pilar social.

                Mas interrompe-me o leitor: “Nem eu, nem ninguém, pensou na nossa saúde mental enquanto sociedade e não foi por isso que deixamos de nos organizar e evoluir.”

Interrompe-me bem e com razão, segundo o relatório da Organização Mundial de Saúde, menos de 1% de orçamento que cada país destina à saúde é alocado a questões da saúde mental. Por isso, dou-lhe razão, este é um pilar claramente ignorado, e abandonado à nossa capacidade individual de se manter sólido e erguido. Mas permita-me contrapor: “O quanto se identifica com a sociedade em que cresceu, viu e ajudou a evoluir? Uma sociedade cada vez mais dividida, com opiniões cada vez mais polarizadas. Onde a nossa capacidade de estar, ouvir e entender o outro está limitada ao grau de concordância da relação.” Permita-me ainda assumir que, tal como eu, se identifica pouco. A nossa sociedade perdeu, ou limitou, a sua capacidade de empatia ao círculo íntimo de cada um. Por outras palavras, limitamos a nossa capacidade de aceitar, e de nos colocarmos na posição do outro aos nossos mais queridos.

Mas contrapõe o leitor: “Tudo bem. Até posso perceber onde quer chegar, mas isso não é de agora, sempre foi assim e não afetou a nossa capacidade de cooperar e evoluir.”

Sim! Mais uma vez, a sua astuta capacidade de refletir está correta. Não é de agora. Fomos acentuando esta despreocupação e individualismo ao longo dos anos. Neste momento, face à facilidade de circulação de informação de inúmeras fontes, somos bombardeados com notícias, histórias e imagens de situações deploráveis da condição humana, de uma forma tão recorrente e intensa que nos obrigou a desligar, porque até a nossa capacidade para lidar com a desgraça alheia tem os seus limites. Desligar cada vez mais até ficarmos reduzidos ao nosso círculo social, ao nosso lar e a nós próprios.

Agora é de novo a sua vez de levantar uma questão importante, “Porquê agora? O que mudou?”

Já antes ignorámos as nossas capacidades relacionais e empáticas sem que isso tenha afetado a nossa evolução ou cooperação em tempos difíceis. Mas o que vivemos hoje é diferente. Vivemos tempos díspares, onde a confiança no outro, nas instituições em que aprendemos a confiar, nos que nos lideram e nos deviam defender, essa confiança tem sido progressivamente questionada. Permita-me, antes que me interrompa, elaborar:

Timothy Levine, um professor de comunicação humana, fala numa das suas mais aclamadas ideias, na Teoria de Verdade por Defeito. De forma simples, este autor argumenta que nas nossas interações sociais, nós assumimos sempre que o outro está a dizer a verdade. O nosso primeiro instinto nunca é de desconfiar, mas sim, de confiar no outro até que o número de dúvidas se acumule ao ponto de duvidarmos da sua credibilidade. Isto acontece porque não seria proveitoso, nem prático, questionar automaticamente toda a informação que é recebida. Por exemplo, estamos em casa e tocam-nos à porta. É o carteiro e descemos para ir buscar a carta ou a encomenda. Não nos passa pela cabeça pedir-lhe a identificação, acreditamos que se trata de um carteiro a entregar correspondência porque não há nenhuma razão prática ou proveitosa para duvidar de todos os “carteiros” e de todas das vezes que nos “tocam à porta”. Para alguém negar este instinto de confiar, é preciso ter sido múltiplas vezes sujeito a contextos que o levem a desconfiar da veracidade do outro.

Atualmente, dada a situação pandémica em que vivemos, e que muitos proclamam ser uma guerra contra o inimigo invisível, a nossa capacidade de confiar no outro e nas instituições responsáveis está cada vez mais enfraquecida. O nosso isolamento, que agora também é físico, veio enfraquecer a nossa capacidade relacional. Se a isto juntarmos as dificuldades de confiança que começam a surgir, seja nas organizações, seja no amigo ou vizinho que “parece não ver o mesmo que nós”, então temos os dois grandes pilares da cooperação em risco, então temos a saúde mental em risco, então temos a sociedade – tal como a conhecemos hoje – em risco.

A saúde mental não pode continuar a ser vista como uma questão pessoal, em que cada um depende da sua capacidade individual para pedir ajuda e ser ajudado. A saúde mental tem de fazer parte da consciência social, sob o risco de, na ausência desta, não conseguirmos a cooperação e a evolução para o futuro desejado.