“O que a mente cala, o corpo fala” já é uma frase sobejamente conhecida, associada às manifestações somáticas e alerta para o facto do corpo não dever ser encarado apenas como uma “soma” de interações complexas entre corpo, mente e meio ambiente e não pode, nem deve, ser visto como separado da mente, a “psique”. Nós somos muito mais do que a soma das partes e o corpo é muito mais do que um palco de eventos.

Cada vez mais as psicoterapias contemporâneas, de 3ª e 4ª geração, abordam a temática do corpo como o reflexo vivo das vivências subjectivas dos sujeitos, desde o seu início de vida, sejam eles sentimentos, emoções, pensamentos, imagens, ou histórias de problemas pessoais carregados de simbolismo.

Numa época em que surgem cada vez mais doenças que “dificilmente” se explicam do ponto de vista científico e com os conhecimentos médicos, fisiológicos, bioquímicos, onde vemos cada vez mais o sistema imunológico dos sujeitos a virar-se contra o próprio organismo (aparentemente sem razão), o corpo deve ser encarado como uma ferramenta de comunicação e de auto-exploração, tão ou mais rica e complexa que a comunicação verbal, já que este se apresenta talvez sem os subterfúgios e defesas com que a mente se mune e se defende daquilo que são as suas percepções ameaçadoras.

Se pensarmos um pouco e nos analisarmos percebemos que muitas das vezes as nossas emoções são sentidas em primeira instância no corpo e só depois são racionalizadas; só que quando a emoção não é reconhecida ou não é bem gerida e não se liberta convenientemente, a energia a ela associada pode ficar como que “amordaçada” no corpo, trazendo com ela dores, mal-estar, ansiedade, patologias várias que, numa abordagem mais distraída, não se associam a vivências subjectivas do sujeito.

Uma das emoções que “piores estragos” pode acarretar é a raiva e que, por diversas razões (culturais, educacionais), os indivíduos não libertam de forma adequada, principalmente se forem crianças, e que vai acabar por ser reprimida, acabando por se armazenar “no corpo” durante anos.

Nesta lógica, muitas das manifestações que se sentem no corpo (diarreias, prisão de ventre, intestino irritável ou enxaquecas, sensação de falta de ar, asma, doenças de pele, entre muitas outras), podem ser manifestações somáticas. É como se a pessoa sentisse necessidade de se defender de um meio externo percepcionado (por alguma razão) como hostil e sente medo de se manifestar, de exprimir as suas emoções – nestes casos, de forma inconsciente, os indivíduos “optam” pela submissão e pelo conformismo, uma vez que não se sentem seguros para exprimir o manancial de emoções que os inunda por dentro.

Por vezes, estamos a falar de pessoas que vivem para fazer coisas, têm um foco na ação e no exterior, mas lidam mal com a esfera dos afetos, com o seu mundo interno e, por isso, defendem-se, adaptam-se para poder continuar a viver, mas as emoções estão lá e a recusa em lidar com elas “abre a porta” à doença psicossomática.

Atualmente existem já muitos estudos que correlacionam os traumas de infância (violência sexual, física ou emocional, negligência física ou emocional, doenças mentais, dependência química ou prisão dos pais, separação ou divórcio dos pais, ou violência doméstica) com os estados de saúde, tendo-se verificado elevadas correlações entre determinados traumas e doenças tais como doença obstrutiva crónica dos pulmões, hepatite, depressão, suicídio, doença isquémica do coração, entre outras. Isto não acontece só por causa dos maus hábitos e comportamentos de determinadas famílias, porque hoje sabemos como a exposição a estas situações traumáticas afectam o desenvolvimento do cérebro e do corpo das crianças. Analisando, através de ressonâncias magnéticas, o cérebro de crianças expostas a situações adversas e traumáticas, consegue-se identificar alterações, por exemplo, nas áreas do centro do prazer e da recompensa, inibição do córtex pré-frontal, uma área fulcral para a aprendizagem e, inclusivamente, podem ver-se mudanças significativas na amígdala, o centro no cérebro, de reação ao medo ou no sistema de reação ao stress do corpo, assim como no seu sistema imunitário e endócrino, todos eles ainda em desenvolvimento.

Por tudo isto, não só seria importante levar estas questões mais a sério, como se devia começar a fazer diagnósticos e a implementar tratamentos de forma integrada e holística, e isto não exige apenas uma mudança nas formas de avaliação e diagnóstico, nas práticas e protocolos, mas, acima de tudo, uma mudança de mindset, de atitude face à doença e à sua origem e, consequentemente, na forma de a prevenir e tratar.